Existem muitas especulações sobre ser professor no Brasil. Um país cujos governantes vivem dizendo priorizar a educação, mas será que não estão conduzindo-na a passos largos para o abismo?
Aprovações automáticas, processos seletivos duvidosos, egressos sem nenhuma habilidade desenvolvida e salários baixos: tudo isso não seria uma mistura de causa e consequência para a desmotivação e o desprestígio de uma categoria que agoniza lentamente?
Pesquisas indicam que o abandono dos cursos de licenciatura bate recordes ano após ano. Isso não deixaria claro que o esvaziamento da profissão não está mais ocorrendo apenas depois de iniciada a carreira, como aconteceu com tantos profissionais? Ele não ocorreria antes mesmo da entrada no curso, considerando que a maioria esmagadora não vê uma licenciatura como primeira escolha e, em um segundo momento, ao longo do curso de licenciatura, quando a pessoa se dá conta de que aquilo tudo talvez não vá valer a pena?
Sim, porque, quando falamos de curso universitário, estamos falando de um investimento no qual o principal recurso de um ser humano, que é seu tempo, é sugado por disciplinas, atividades complementares, estágios obrigatórios nos quais os próprios estudantes confessam não ver sentido e, agora, pelas atividades de extensão.
O tempo é o recurso mais valioso de uma pessoa. Então, não seria um dos maiores males que se pode fazer a um jovem fazê-lo desperdiçar esse recurso em algo que não tem retorno ou cujo retorno é extremamente baixo quando comparado ao investimento dos seus melhores anos — justamente aqueles em que, em geral, a pessoa tem mais energia, mais ousadia e mais disposição para enfrentar adversidades?
E as opções são muitas, apesar de a maioria nem perceber.
Se o plano for fazer concurso público para professor, será que não existem muitos cargos técnicos que valeriam mais a pena do que um cargo de professor, tanto em termos remuneratórios quanto em termos de condições de trabalho?
Compare a qualidade de vida de um técnico do Judiciário com a de um professor de ensino médio em uma escola pública, seja ela estadual ou federal. Compare também as remunerações. O resultado não mostraria uma possível vantagem do técnico judiciário nos dois itens considerados?
E ainda há cargos técnicos que exigem apenas o nível médio, o que pode dar uma vantagem de, no mínimo, quatro anos na partida da formação patrimonial de um jovem. Ou seja, começar a receber pagamentos mais cedo não ajudaria a atingir a estabilidade financeira mais cedo? E, por começar a receber mais cedo, também não seria provável que tenha menos responsabilidades do que o licenciado que já terá mais de 22 anos ao concluir o curso?
O professor, para receber um salário entre quatro mil e sete mil reais, dependendo de diversos fatores, como o estado da federação em que exercerá a docência, precisa passar pelos quatro ou cinco anos de uma licenciatura e aguardar um concurso com vagas para a sua área. Será que essa relação entre tempo de formação, remuneração e condições de trabalho é realmente vantajosa?
Se fossem somente os salários baixos e a falta de recursos adequados que desafiassem a vida de professor, eu nem escreveria este artigo e você também não veria tantas notícias envolvendo professores. Mas, além disso, não deveríamos considerar também a violência contra os professores, tanto por parte de alunos quanto por parte de pais e até mesmo de outros elementos de uma comunidade?
Não será difícil encontrar relatos de professores que foram vítimas de lesão corporal, de assédio moral, de ameaça e de outras formas de violência. No caso das professoras, será que elas não podem sofrer ainda mais em um país no qual ainda existem comportamentos machistas, sexistas e misóginos?
O número de denúncias feitas por professoras contra assédio sexual, por exemplo, estaria realmente próximo de mostrar a realidade? Será que a maioria das vítimas faz uma denúncia? E, quando se trata de assédio sexual vindo de um superior, como aqueles coordenadores ou diretores que se acham donos de suas subordinadas, será que o medo de perseguição não seria um dos motivos para o silêncio?
E as outras professoras? Será que algumas não deixam de fazer a denúncia por vergonha? Outras, por medo da reação de seus maridos? E quantas tentam simplesmente se esquivar das investidas de superiores, colegas e até de alunos, em alguns casos?
Eu sei que, nesse cenário noctífero, há pessoas que realmente se inspiram em professores específicos e decidem se tornar professores. Mas será que não há tantos outros que apenas viram uma profissão que lhes estava ao alcance, na falta de outra coisa melhor? E não há ainda tantos outros que, mesmo com a expectativa de baixos salários, veem nesses baixos salários uma oportunidade menos pior do que as outras que lhes são possíveis?
Aos primeiros, desejo boa sorte. Quanto aos últimos, lamento pela sua falta de opção.
Eu comecei nessa profissão de maneira informal, aos dezesseis anos, em cursos de microinformática para funcionários de algumas empresas. Depois fiz uma licenciatura, seguida de um mestrado, depois um doutorado e, por fim, um pós-doutorado. Ao longo desses anos, lecionei quase que exclusivamente no ensino superior, em uma grande universidade privada e, como substituto, em duas universidades públicas.
As condições de trabalho na universidade privada em que trabalhei foram as melhores que tive em toda a minha vida docente, e acredito que eu nunca deveria ter saído de lá. Também não posso reclamar do salário, até porque essa universidade me pagou uma bolsa para que eu obtivesse o grau de doutor, o que hoje é responsável por mais de 50% da minha atual remuneração.
Eu não vivi as dores da maioria dos professores e das professoras, mas acompanhei de perto professores e professoras do ensino fundamental e médio, convivi com eles e sei de muita coisa que não aparece na grande mídia.
Sabendo do que eu sei, eu gostaria de dizer palavras de incentivo para aspirantes a professor ou mesmo aos iniciantes. Infelizmente, não sou desonesto e direi que, se essas pessoas puderem encontrar uma atividade que lhes dê respeito, segurança, boas condições de trabalho e um salário digno, será que não deveriam considerar seriamente a possibilidade de abandonar o barco e seguir suas vidas?
Afinal, alguém é obrigado a salvar alguma coisa? É obrigado a salvar alguém? E, especialmente, é obrigado a salvar uma educação que, para muitos, parece afundar rapidamente, dia após dia?