Quando
a bolsa cai, tudo o que levou à queda é irrelevante do ponto de
vista prático, pois está no passado e não temos controle sobre
ele.
Por
outro lado, entender as correlações possíveis entre o movimento de
venda quase generalizado e os acontecimentos macroeconômicos pode
servir para buscar sinais de orientação para o futuro.
Sempre
que alguém me pergunta o que levou a B3 a cair, respondo que foi o
desejo generalizado de vender que predominou sobre o de comprar.
Apesar de ser em tom de brincadeira, em última instância, é a
verdade inquestionável.
Agora
vamos aos acontecimentos que podem ter influenciado esse desejo de
sair das posições compradas, passando para as posições vendidas.
Juros
– aumento da taxa de juros, em geral, faz com que o valuation
das companhias seja diminuído, pois o fluxo de caixa futuro é
precificado por uma fórmula que tem em seu denominador uma taxa de
juros. Consequentemente, aumentar a taxa de juros diminui o valor
desse fluxo de caixa, fazendo com que, até os fundamentalistas,
reavaliem se suas posições compradas ainda valem a pena, quando
comparadas a outros investimentos. Agora, se o aumento da taxa de
juros básica ocorre em na economia considerada a mais segura do
mundo, é fácil entender por que o capital estrangeiro voa daqui. Os
retornos esperados na B3 podem não ser suficientes para competir com
uma alta da taxa de juros nos EUA e, assim, o chamado hot-money
vai embora mesmo. Novamente, muita gente querendo vender, pouca
gente com vontade de comprar, preços desabam.
Por
exemplo: por que eu correria os riscos na B3 por um ganho de 10% se
no investimento mais seguro do país eu posso ganhar 12,75%? Não faz
sentido, do ponto de vista econômico, eu continuar com um papel que
me ofereça menos que um Tesouro Selic, concorda?
Se
muitas pessoas chegam a essa mesma conclusão, haverá muitos
vendedores, o que pressionará os preços para baixo. Quanto mais o
preço desse, mais gatilhos de stop
são disparados, aumentando o número de vendedores em competição
pelo melhor preço, o que fará os preços diminuírem ainda mais.
Claro que isso não continua indefinidamente, pois, chegará um
momento em que o preço chegará a ser uma oportunidade diante
daquele mesmo fluxo de caixa que estava depreciado, daí entram novos
compradores e o preço para de cair, ou mesmo começa a subir.
Outros
fatos também têm um impacto negativo sobre a B3, pela razão mais
óbvia possível: ninguém quer perder dinheiro. Então, o que
acontece se a guerra da Ucrânia contra a Rússia se prolonga,
aumentam os embargos econômicos que acabam prejudicando o mundo
todo? Ou se a China anuncia um novo e rigoroso lock-down
em uma de suas mais importantes cidades, deixando o mundo inteiro
atento, novamente, com toda a razão, com medo de começar tudo de
novo, como no início de 2020? As pessoas venderão seus ativos de
maior risco e procurarão ativos mais estáveis.
Além
disso, temos um ano de eleição presidencial. As incertezas são
enormes, pois estamos diante de dois cenários quase que totalmente
antagônicos em termos de condução da economia. E a chamada
terceira via é ainda mais diferente dos dois principais candidatos.
Por
fim, acredito que todo mundo gostaria de ouvir “o que deveria
fazer”. O que tenho a dizer sobre isso é que, se eu soubesse, eu
já teria feito ☺
Um
forte abraço e até brevíssimo!