quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Não é determinante, mas pode ter tudo a ver

Por Marcos Rodrigues Pinto, professor doutor, MBA em Finanças e Investimentos

O Fator que Ignoramos no Sucesso Financeiro

Existem muitos fatores que podem impactar positiva ou negativamente a vida financeira de uma pessoa. E, por mais que a maioria das pessoas goste da ideia de que têm controle sobre suas vidas, a verdade é que estamos o tempo todo ignorando as probabilidades.

Para ficar mais fácil de entender meu ponto de vista enquanto converso com você que, por acaso, se deparou com a minha publicação, vamos usar o Brasil como campo de estudo.

No Brasil atual, cerca de 85% das famílias têm renda igual ou inferior a 5 mil reais. A chance de nascer em uma dessas famílias é, então, de quase 9 em cada 10. Nascer em uma família com orçamento apertado já é um fator de desvantagem por questões como acesso à saúde, à alimentação, à moradia e à educação de boa qualidade.

Nascer em uma periferia pobre diminui consideravelmente as chances de uma pessoa prosperar financeiramente porque sua rede de contatos é limitadíssima em oportunidades, e mesmo os que se destacam terão dificuldade em acessar algum benefício dessa rede, porque ela tem muito pouco a oferecer. Some-se isso ao risco diuturno de violência, o que produz medo e atrapalha diversas ações. Além disso, há a normalização de certos comportamentos e modos de vida que nada agregam à formação de uma pessoa.

Sei que muitos dos que lerão esta publicação irão se lembrar de nomes de uns e outros que saíram de periferias pobres e alcançaram fama e riqueza. O problema está aí, no uns e outros. Usar exceções como exemplo é a forma mais idiota de argumentar. Porque o mérito que esses uns e outros tiveram, na maioria das vezes, foi apenas a coragem de testar e se arriscar a cair em uma situação pior do que a que estavam.

Costumamos ver essas exceções e aplaudi-las, acalentando a nossa ilusão de que qualquer um pode conseguir o mesmo feito. Mas eu afirmo a você: isso é apenas uma ilusão. Não o fato de ser possível. Ser possível não é uma ilusão porque alguém conseguiu. No entanto, acreditar que qualquer um consegue é ilusão.

Porque só vemos os que chegaram ao topo. Os milhões que ficaram pelo caminho por eventos sobre os quais não temos a menor ingerência jamais ganharão os holofotes. Como plantas que germinaram, nós os observamos a olho nu. Das sementes que apodreceram embaixo da terra, jamais saberemos.

Muitas das pessoas que ficaram pelo caminho tiveram a mesma ousadia de arriscar seu destino por um futuro melhor. Pagaram o preço mais alto, porque abdicaram de muitas coisas e não receberam nenhum troféu.

Para que uma pessoa saia da base e atinja o topo, são necessários tantos eventos encadeados, todos funcionando de um modo específico, que é impossível ignorar o fator sorte, premiando o esforço, a abdicação e a perseverança. E não estou dizendo que essas pessoas tiveram apenas sorte. Estou dizendo que, além de tudo, elas precisaram de muita sorte.

Um jogador de futebol que abriu mão da educação formal para se dedicar plenamente ao esporte poderia ter se lesionado irremediavelmente antes dos 20 anos, o que teria um impacto terrível em sua carreira e o deixaria em maior desvantagem em relação aos outros, porque somente depois dos 20 anos começaria a procurar outra carreira para se dedicar.

Você conhece aquele jogador talentoso, famoso, milionário. Mas não conhece aquele outro, tão talentoso quanto, que foi vítima de um assalto à mão armada, foi ferido no assalto e não pôde mais jogar futebol. Você conhece aquele empresário de sucesso, famoso, milionário, mas não conhece o outro que entrou no mesmo ramo e foi sabotado diversas vezes até perder tudo.

Vemos os que estão no pódio e deixamos os milhões que tentaram caírem no esquecimento, como se nunca tivessem existido.

E quantos obtiveram sucesso à custa de uma ideia roubada de outra pessoa? Quantos não subiram rápido subtraindo o patrimônio de alguém de quem tinham a confiança? Quantos não compraram sua aprovação em seleções disputadíssimas?

Ralos Demais, Ralos Grandes

Outro fator que dificulta e que pode até determinar o fracasso financeiro é a quantidade de ralos, e o tamanho deles, que uma pessoa tem na vida. Podemos comparar a capacidade de produzir de uma pessoa com uma torneira. Se ela tem uma única fonte de renda, então ela tem uma única torneira.

Até aí, tudo bem. O problema está nos ralos. Quantos ralos você acha que a sua torneira suporta? Se o ralo consome a uma taxa maior do que a taxa de saída da mangueira, temos um problema muito sério.

Se a torneira parar por um instante, não tem nenhuma água acumulada. Será o caos. Não tem água para regar nenhuma planta, nem para a higiene, nem para beber.

E há situações ainda piores. Há pessoas que arranjam mais de um ralo embaixo da sua torneira. Essa pessoa não terá a menor chance de evoluir financeiramente, a menos de um golpe de muita sorte, tal como ganhar na loteria, o que ainda nem pode resolver o problema, dependendo do tamanho desses ralos.

Em uma situação em que você pode fechar o ralo e acumular água, há mais chances de você poder plantar algo, para depois ceifar. Se nenhuma água se acumula, não tem como plantar nada, porque não germinará, muito menos crescerá.

Sendo Curto e Grosso, Talvez Até Mais Grosso

Em uma família onde o jovem não precisa arcar com despesas, é bem treinado pelos pais para produzir cedo e orientado para o crescimento, as chances de esse jovem ascender financeiramente, em termos patrimoniais e de renda, são muito maiores do que em uma família em que ele, mal comece a receber seu dinheiro, precise contribuir para o sustento do lar.

Se um jovem começa a ter uma renda, digamos, aos 20 anos, e fica na casa dos pais até os 25, orientado pelos pais a investir o seu dinheiro e administrar a sua renda de forma racional, ele terá um patrimônio inicial, aos 25 anos, maior que o de outro jovem que tenha que arcar com as despesas na casa de seus pais, mesmo obtendo a mesma renda.

A diferença cresce quando a família já tem um patrimônio consolidado, não apenas uma renda que lhes proporciona conforto financeiro, mas um patrimônio disponível para impulsionar a vida financeira dos filhos. Dois jovens que se casam aos 25 anos e ganham um apartamento de presente dos pais terão maiores chances de crescer financeiramente do que um casal na mesma faixa etária que precise morar de aluguel.

Eu Não Quero Desanimar Você

O meu objetivo com esse texto não é desanimar ninguém. Pelo contrário. Quero dialogar com aqueles que se veem sufocados, sentindo que sua recompensa não está sendo proporcional aos esforços que estão fazendo, ouvindo os que estão no palco dizendo que qualquer um que se esforce chega lá, enquanto a pessoa olha para si e se pergunta: o que eu estou fazendo de errado, já que me esforço tanto e não chego lá?

É para essas pessoas que quero falar, especialmente. Porque quero que elas se sintam plenas por saberem que estão fazendo o melhor que podem fazer, dentro do cenário em que foram colocadas e que, mesmo que não saia como o seu coração desejou, já valeu a pena rodar o filme da vida com o melhor personagem que ela pôde se tornar.

Desejo a você excelentes cenas dos próximos episódios do filme da sua vida.

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